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Devemos atirar o pau no “gato?”



A cidade de São Paulo está toda conectada. Prédios estão de “mãos dadas” com prédios por meio de fios elétricos infinitos. Seremos otimistas: é a beleza urbana. E essa proximidade da metrópole é tão intensa que dividimos energia. Ou melhor, pagamos pela a dos outros.

A cidade está rodeada de gatos; e não são os que você está pensando. São os furtos de energia elétrica para evitar a cobrança. Em 2021, a quantidade de “gatos” detectadas seria o suficiente para abastecer 336 855 casas por um ano, de acordo com um artigo da Veja São Paulo. Os furtos são feitos, principalmente, pela população de baixa renda. Deve ser considerado os motivos pelos quais esses crimes são cometidos. Por falta de planejamento urbano e o deslocamento de indivíduos para as periferias da cidade, há certas localizações, como morros, onde as empresas de energia não têm acesso. Em consequência, a população dessas áreas furtam a energia de locais que têm acesso. Outro motivo, e o principal, é por conta da população de baixa renda não possuir o dinheiro para pagar a conta de energia elétrica.

Os gatos de energia beneficiam os fraudadores e furtadores que cometem esses crimes como também beneficiam o governo pelo aumento de impostos. As empresas e distribuidoras de energia elétrica, por conta dos furtos, perdem dinheiro e precisam compensar os gastos pelo aumento do custo de energia elétrica. Portanto, quem paga a conta no final, é você.

Um tipo de furto de energia, possivelmente o mais comum, é o desvio de energia antes que passe pelo relógio medidor. O relógio medidor é utilizado para realizar a contagem de energia elétrica consumida. O gato de energia é feito, então, quando há um desvio no eletroduto antes dos cabos chegarem ao relógio medidor. Dessa forma, a energia sendo consumida não é contada e os consumidores dela não pagam a sua conta. Há também a fraude de energia com violação no lacre do medidor, onde a parte interna do equipamento é revelada e pode ser adulterada. No relógio medidor eletromecânico, que funciona por meio de indução eletromagnética por um disco de metal, que, pelo movimento das engrenagens causando o movimento mais rápido do disco, indica um maior consumo de energia. O fraudador pode alterar esse mecanismo na forma de induzir atrito no disco de metal para que gire mais devagar, e menos energia consumida a ser contada. No medidor elétrico, que inclui um sistema mais complexo, a fraude pode ser feita por meio de interrupção de circuitos eletrônicos que registram os sinais de corrente, que são usados pelas empresas e distribuidoras de energia para contarem quanta energia foi consumida. O outro tipo de gato de energia é pela injeção de uma corrente contínua na bobina do medidor. A bobina é feita para funcionar com corrente alternada; a injeção de uma corrente contínua provoca um aquecimento, que danifica o isolamento entre espiras, causando um curto-circuito. Com esse ato, o medidor não funciona e o consumo de energia não é mensurado.

De acordo com o artigo 155 do Código Penal, a punição para o furto de energia é de 1 a 4 anos de prisão com multa. A suspeita de gato de energia não é incomum, pois não é difícil para os distribuidores perceberem quem está cometendo o crime. Pode ser detectado somente pela percepção de uma redução de consumo de energia por um consumidor, que, a não ser que não esteja mais morando em sua residência, muito provavelmente furtou a energia elétrica. Porém, existe um desequilíbrio entre o número de fiscalizadores e a demanda, pois, como foi mencionado, o gato de energia é extremamente comum; muito mais do que o número de fiscalizadores. Por isso, a penalidade de furto de energia pode demorar até 3 anos. Essa demora dificulta o evidenciamento dos fiscalizadores para provar que houve um gato de energia elétrica. É extremamente difícil comprovar o furto de energia após anos dele ter sido feito. Nos casos em que o lacre medidor é violado, é feita uma inspeção do equipamento, onde irregularidades podem ser identificadas. No caso de injeção de uma corrente contínua na bobina do medidor, a identificação pode ser visível pois as espiras são danificadas. Em uma bobina, pode haver milhares de espiras, e quando for feita a inspeção do medidor, esses danos são visíveis em mais de um ponto no equipamento.

Os riscos de gato de energia elétrica não só se convém aos riscos penais; o ato do furto de energia é extremamente perigoso. São inúmeros os casos de acidentes. Há o risco de choque elétrico, eletrocução, queimaduras e incêndios, ou quedas.

Quem, afinal, se beneficia então? Os furtadores de energia elétrica, naturalmente, se beneficiam por evitar a cobrança da conta. Dessa forma, não precisam gastar dinheiro com isso. Mas a evitação nunca é um benefício. Os gatos não só são vulneráveis aos riscos de acidentes elétricos como também ficam presos em um ciclo de criminalidade, e sem a própria educação financeira, não conseguem evoluir do consumo de energia illegal. Outro beneficiário, mesmo sendo mais discreto, é o governo. Essa conclusão interessante foi feita pelo jornalista do Valor Econômico Edvaldo Santana, em seu artigo, “O axioma do furto de energia.” As empresas distribuidoras de energia são cobradas tributos pelo governo por um tanto de energia distribuída. Quantos mais furtos de energia, mais está sendo consumida, e mais precisa ser distribuída. Portanto, a porcentagem dos tributos cobrados pelo governo equivalem a uma maior quantia de dinheiro. O governo se beneficia por meio desse aumento.

Quem paga a conta no final é você. As empresas e distribuidoras de energia elétrica, por conta de não cobrarem todos os seus consumidores, gastam mais para produzir e distribuir a energia do que estão vendendo. Em consequência, perdem dinheiro, e para compensar, são forçados a aumentar o custo da energia elétrica. Então quem paga pelos gatos é você, que consome energia da forma justa. O ladrão recebe enquanto o íntegro paga. Essa é a infeliz realidade do nosso país.

Uma solução deve ser recorrida. Como diversos problemas, ela está enraizada na educação. Em vez de serem estimulados a fazerem gatos de energia, a população de baixa renda deveria ter acesso a educação financeira para evitar a dívida e o consumo excessivo, que os causa a gastarem dinheiro em bens inúteis em vez de os que realmente necessitam, como a luz. Se fossem estimulados a terem essa consciência, poderiam ter dinheiro para pagarem suas contas de forma justa e evitar a punição penal e acidentes elétricos. De forma geral, métodos de economização de luz deveriam ser apresentados a essa população, como usar a luz solar durante o dia, apagar a luz de ambientes desocupados, ou trocar lâmpadas não sustentáveis por lâmpadas LED. Dessa forma, os gatos podem se comportar e reduzir seus custos elétricos de forma honesta.


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