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A Boate Kiss e Seu Legado Infinito

A série recente da Netflix "Todo dia a Mesma Noite" ganhou muita atenção de noite para o dia, uma grande parte sendo por seus atores fantásticos, sua cinematografia linda, mas especialmente por sua realidade; retratando um acontecimento que muitos brasileiros lembram até hoje. Ao perguntar para qualquer adulto brasileiro, que frequentava bares, boates e festas durante essa época, muitos vão falar sobre o quão assustador e desesperador foi o caso da Boate Kiss. Um marco histórico, sendo o terceiro maior desastre em casas noturnas do mundo, um evento que traumatizou uma geração inteira.

Uma década atrás, no dia 27 de janeiro o Brasil entrava em luto, sofrendo com a perda de 242 pessoas e mais 636 feridos em uma só noite. Localizada em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, a famosa Boate Kiss entrou em chamas após o show da banda popular da região "Gurizada Fandangueira". Nos dias que antecederam o infame desastre, muitos alunos das nove faculdades localizadas no Município de Santa Maria já estavam confirmando suas idas à boate. A casa de festas contando com 18 aniversários e por volta de 1.500 universitários atendendo, ultrapassando o limite de 690 pessoas. Além disso, a Boate já tinha vários problemas que não haviam sido solucionados ou revistados antes da festa, sendo; sua falta de saídas de emergência, tendo somente uma porta que estava sendo usada como saída e entrada, uma falta de painéis de saída de emergência, fazendo com que uma grande parte das vítimas fossem em direção ao banheiro e ficassem presos lá por acharem que era uma saída além de muito mais.

Às 2h30 da manhã, durante o show da Gurizada Fandangueira, o cantor Marcelo de Jesus do Santos ativou um sinalizador feito para uso exterior que em pouco segundos já estava queimando a espuma isolante que rodeava os tetos e paredes da Boate. A espuma, que foi comprada por ter um custo mais baixo, assim como o sinalizador, liberava uma fumaça tóxica, a mesma usada em campos de concentração de Auschwitz e o fogo não conseguia ser apagado pelo mau funcionamento do único extintor no local. Fazendo com que todos que inalaram a espuma começassem a perder todos os sentidos e a mobilidade, eventualmente se sufocando. Além dos efeitos da espuma, que consequentemente foi a causa da morte de 90% das vítimas; o sufocamento pela superlotação e o desespero dos grandes grupos de pessoas, as queimaduras e a fumaça do fogo em si também foram fatores que contribuíram para o acidente. Finalmente, outro elemento crucial que levou à morte das 242 pessoas foi a falta de treinamento dos seguranças para incêndios e a falta de comunicação, que levou a estes funcionários bloquearem a saída dos jovens no início.

No dia 28 de janeiro, um dia após o desastre, havia sido decretada a prisão temporária dos dois sócios da Boate, Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, além dos integrantes da banda. Os demais foram acusados de "Homicídio em dolo eventual", ou seja, não havia intenção de morte porém o risco era certo, por conta das negligências da Boate e dos integrantes da banda. Um mês depois, o Procurador Geral recebeu um abaixo assinado de mais de 28 mil pessoas pedindo apoio do Ministério Público no caso em busca de Justiça.

Em dezembro de 2021, o processo de condenação do júri popular, contendo mais de 19 mil páginas, havia decidido na condenação dos sócios e os integrantes por 242 simples homicídios com dolo eventual e 636 tentativas de assassinato; sendo entre 22 e 18 anos de prisão para cada. Subsequentemente essa condenação foi anulada pelo presidente do STF da época e em agosto de 2022. O júri também foi anulado, fazendo com que os acusados, após oito meses na prisão, fossem soltos. Hoje, o caso continua sendo investigado junto com o STJ e o STF, e há uma chance de que a defesa dos condenados ainda possa recorrer. O caso continua sendo abordado até hoje e as famílias das vítimas em Santa Maria continuam a procura da Justiça e compreensão que merecem.


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