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99 Anos da Resposta Histórica do Clube de Regatas Vasco da Gama


Cenário na Época

O Campeonato Carioca de 1923 foi organizado pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT), ocorrido entre as datas 15 de abril e 26 de agosto. Dezesseis equipes participaram do Campeonato Carioca, e foram divididas entre Série A e Série B, com 8 equipes participando em cada uma. O primeiro colocado da Série A e o primeiro colocado da Série B se enfrentavam para definir o Campeão Carioca. A década de 1920 foi uma década onde as pessoas ainda eram muito racistas, pois o Brasil havia abolido a escravidão recentemente (em 1888), e como resultado, fazendo com que as pessoas de uma classe social inferior, maioria negras, não fossem muito representadas no futebol. Em 1921, por exemplo, o presidente do Brasil, Epitácio Pessoa, fez uma reunião com a CBD (atual CBF) e recomendou que apenas jogadores brancos representassem a Seleção, com a justificativa de preservar a reputação do Brasil nos países exteriores. As pessoas mal sabiam que em 1924, tudo iria mudar.


Contexto Histórico

O Clube de Regatas Vasco da Gama havia sido campeão, no ano interior, da segunda divisão e portanto garantiu o acesso à primeira divisão do Campeonato Carioca. Em 1923, a equipe do Vasco da Gama (conhecida como os Camisas Negras devido à cor dos seus uniformes, preto) venceu seu primeiro Campeonato Carioca, com uma campanha incrível de 11 vitórias, 2 empates e apenas 1 derrota. Essa taça, foi a primeira conquista de uma equipe composta por 12 jogadores negros, mulatos e operários, causando uma enorme repercussão à época, pois o futebol era um esporte praticado apenas por brancos. Ademais, essa conquista foi a primeira conquista de um time pequeno, que até então era o Vasco da Gama. Apesar do futebol ser visto como um esporte de brancos, com uma classe social mais elevada, o Gigante da Colina não concordava com esse preconceito racial e social, pois já que a equipe era de colônia portuguesa, seguia a tradição, a mistura. Essa conquista quebrou a hegemonia de seus rivais, como o Flamengo, Fluminense, Botafogo e América, times que jogavam apenas com jogadores brancos. Essa conquista Vascaína deixou seus rivais furiosos, pois os destaques da equipe campeã eram todos negros, mulatos ou operários. Já que o Vasco era um time difícil de ser batido, os dirigentes das equipes rivais resolveram ir atrás das atividades profissionais e sociais dos Camisas Negras, em uma época onde o futebol ainda era amador e os jogadores não recebiam um salário para jogar. Essa investigação era um golpe para tirar o Gigante da Colina das disputas. Após várias tentativas, os adversários se reuniram para criar uma nova entidade, a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA) e barraram a inscrição da equipe Cruzmaltina. Segundo os dirigentes rivais, o Vasco “tinha atletas de profissão duvidosa”, além da falsa alegação que a equipe não tinha um estádio próprio. Os clubes grandes, então pediram para que o Vasco excluísse 12 jogadores para que pudesse participar do torneio, e “por coincidência”, todos esses jogadores eram negros e/ou operários.


A Resposta do Vasco da Gama

O Vasco da Gama, por sua vez, recusou a proposta. Em uma carta histórica enviada pelo presidente do Gigante da Colina, Augusto Prestes, no dia 7 de abril de 1924, ele demonstrou a sua indignação à discriminação racial. Nessa carta, o Clube de Regatas Vasco da Gama diz que “Estamos certos de que Vossa Excelência será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno de nossa parte sacrificar, ao desejo de filiar-se à AMEA, alguns dos que lutaram para que tivéssemos, entre outras vitórias, a do Campeonato de Futebol da Cidade do Rio de Janeiro de 1923 (…) Nestes termos, sentimos ter de comunicar a Vossa Excelência que desistimos de fazer parte da AMEA”. Após lutar contra o racismo e preconceito social, essa resposta tornou-se a conquista mais importante do clube. Depois da equipe Cruzmaltina ter sido vítima do racismo, tudo que restou-lhe foi disputar a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, um torneio que só havia times de menor expressão, pois o campeonato foi abandonado após a criação da competição AMEA.


Após a Resposta Histórica

Nesse dia histórico, o futebol brasileiro começou a ser de todos, até do povo mais simples e negro. Essa ação do Vasco expandiu a tolerância em questão aos negros e operários e foi um traço essencial para o futebol, que possibilitou a diversidade social e racial. Desde 1923, negros começaram a ser destacado de um jeito positivo, como o Pelé, Garrincha, Didi, Barbosa, Romário, entre outros talentos no futebol brasileiro. Em 1924, a equipe Cruzmaltina disputou a LMDT e foi campeã. No ano seguinte, o clube recebeu um novo convite para participar da AMEA, porém, desta vez, sem precisar excluir jogadores. Esse convite não foi enviado por conta de arrependimento, mas sim porque o Vasco era o clube que tinha o maior número de torcedores nas arquibancadas, dando lucro para os donos das ligas. No ano de 1925, o clube participou da AMEA, e garantiu a terceira colocação, e em 1926, chegou na final e foi vice-campeão. Após a Resposta Histórica, o Vasco se consagrou como um dos maiores times de futebol carioca e motivou a construção de seu atual estádio, o São Januário, que foi finalizado no dia 21 de abril de 1927. Esse feito do Vasco foi algo tão importante que até hoje em dia, há uma música, frequentemente cantada pela torcida vascaína, chamada ‘Camisas Negras’, onde é lembrado a luta racial e social do Vasco da Gama contra o racismo.


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